
Mãos trêmulas que não conseguem escrever. É o teu riso que ficou gravado em minha memória, é esse riso debochado, mas gracioso que persegue-me. E então vou abrir o guarda-roupa, pegar aquele casaco e sugar todo o teu perfume para ver se consigo trazer tua presença para perto de mim. Não sou pretenciosa. Sou como cinderela neste momento, que bateu o relógio de mais da meia noite, mas que não perdeu o sapartinho e sim pessoas de carne e osso.
Somente agora que eu cai em mim e sinto com uma vontade tremenda de chorar. Mas não consigo. Lembro do teu sorriso e sinto vontade de rir. E do sorriso de alguém que deu a mão para mim sair do carro, aquela mão segurando a outra mão pequena, trêmula e vermelha. Mãos, mãos. Tuas mãos pálidas e finas em que deslizava-se um anel de brilhantes.
De tão pretenciosa que fui, lá estava eu, sentada no meio de duas divindades, emanando beleza e porque não dizer desejo? Mas não qualquer desejo trivial de comer, mastigar, ser mastigada. Mas um desejo de abraçar, ser consumida, apertada, como se fosse o último segundo de suspiro.E fui. E antes que me abraçasse a fim de consumir-me, olhou em meus olhos sugando tudo que eu estava sentindo naquele momento em que o silêncio poderia ser a melhor resposta para todas as perguntas que nos faziámos.
Embrulhada em um sobretudo preto (eu adoro preto, ela ama) lá estava ela refletida no espelho de um teto muito bonito. Frente a frente depois de mais de 730 dias. O mundo estava para desabar sobre minha cama e ela chegou com sua mão (sim, ela contra-ataca) branca de cera para entrelaçar em minha cintura e dizer aos outros como eu sou importante. O momento só meu. Como Norma Desmond, eu não queria compartilhar aquilo com ninguém.
Parece que agora as paredes tremeram, um arrepio subiu pelo meu corpo. Ele sorri para mim, me beija. Eu desmonto por dentro. E dentro do carro, sento no meio numa tentativa frustrada de monopolizar cada um deles para mim, porque são uma pessoa só. Mas desisto e contento-me em viajar na janela e ver que seu braço está entrelaçado no dele. Entrelaço minha mão na dela. Acho aquilo o "must" e naquela hora não existem Lucas, nem Monicas.
Na verdade, a parte hilariante se estende por toda a noite, com direito a chapeus extraviados, charutos e pesquisas da veja. Tomando um vinho para afogar meu nervosismo, fico observando exercícios contra o pigarro. A essa altura enfio um canapé em minha boca para abafar meu riso. O riso mais gostoso que estava sendo proporcionado nos últimos tempos. Eu não tenho nada, mas tem comida temperada no prato. Ela cochicha e diz que está ruim. Concordo em número, gênero e grau. E agora, sou apresentada a pessoas que certamente nunca mais irei ver na vida. Capricho na minha melhor expressão. Confesso, que vontade enorme de sair quebrando pratos em cabeças alheias. E eles também parecem se sentir nesta vontade, porque seria muito melhor falar sobre carreira do que sobre qualquer assunto que estava sendo discutido naquela mesa. E os guardanapos são feitos para babador? Gostaria de uma resposta, por favor.
Desejo incontrolável de comer aquele doce de bolacha ao recheio de morango e ela pedir pra que eu comesse mais e para ficar mais um pouco. Pura educação ou real intenção? Fico com a primeira alternativa.