terça-feira, 4 de setembro de 2007

Um vermelho balão, rolando e sangrando, chutado pelo chão


Meus dedos já não tem a mesma facilidade de antes para redigir o que sinto. De como este calor infernal e esse vento quente me deixam de mau humor.E essa espera interminável de que "algo de novo no ar", estão deixando-me incapacitada de me auto expressar (estar repetitiva é característica da idade avançada meus caros). Lembrei-me de um verso que dizia "amor vem de nós e demora". Mas no meu caso, esta teoria não é aplicável, porque demoro apenas cinco segundos para apaixonar-me por alguma coisa, assim como demoro outros cinco segundos para desapaixonar-me. E quando pratico o ato de doar o meu amor, não é uma parcela, como se doa dinheiro para pagar os eletrodomésticos. É por inteiro.Não tem essa de meio a meio. É ou não é, como dizia Parmênides. Ofereço meu corpo e minha alma, aqueles que amo. E pergunto-me constantemente quando irei sossegar o facho ou se acabarei como Maysa que morreu sem saber quem realmente era, cantando a dualidade do amor e paixão.

E apaixono-me por filmes. Me dou ao luxo de chorar nas cenas que julgo serem as mais lindas e de suspirar diantes daquelas criaturas mágicas que atuam numa televisão frígida e que parecem sair de um cd de dvd e incorporar na nossa vida. E foi assim com Joan Crawford, que saiu de "Grande Hotel" e seduziu-me de tal forma que hoje sou uma cultuadora fiel de seus olhos enigmáticos. O fato se repetiu com Bette Davis, Deneuve, Gloria Swanson, Humphey Bogard...são olhos, rostos, expressoes que fazem toda a diferença para mim. Mas não posso esquecer de citar, a primeira das primeiras pela qual fez meus olhos ficarem vidrados na televisão: Cássia Kiss. Lembro-me até hoje, Adma Guerreiro a personagem que ela interpretava em Porto Dos Milagres fascinava-me de tal forma ao ponto de fazer um caderno cultuando suas fotos. Depois de alguns anos, essa paixão esfriou e outras vieram tomar conta de meu íntimo. Mas Cássia e seu veneno depositado em um anel jamais serão esquecidos.

Tenho meus momentos com vozes também. As cordas vocais, depois das mãos são os instrumentos mais fascinantes que um ser humano pode ter. E meu amor fulminante pela Sylvinha, antes de tornar-se em carne e osso, era apenas um eco que saía dos alto falantes do meu som. Aquelas cordas vocais no mínimo perfeitas conquistaram-me, que eu nem precisava mais ver seu rosto, porque não importava-me mais se era bonita ou não. Aquela voz e diççoes divinas que importavam. Manhattan Transfer, Vanusa, Eduardo Araujo, Ronnie Von, todos eles e mais alguns de milhares pelos quais sou devota, escutando suas músicas numa forma de agradecimento por recitarem palavras que me confortam, por não precisar estar com eles em corpo para poder senti-los perto de mim. São meus músculos vocais vibrando e dizendo: eu amo vocês e amo mais esse som que sai da boca de vocês.

E assim, vivo num casamento quase que eterno com essas paixoes intermináveis. Estou condenada porque não consigo de gostar de um conjunto. Gosto de coisas separadas: mãos, vozes, olhares. E no dia em que parar de gostar, é só divorciar e começar outro casamento, talvez com alguém feito de carne, ossos e coração.