quarta-feira, 12 de setembro de 2007

As time goes by


- Quando se tem 16 anos, o tempo passa devagar.


Após essa frase ter sido proferida daquela criatura maravilhosa etc e tal, começei a pensar de como era mentira o que ela havia acabado de dizer. Não, 16 anos são rápidos, os mais rápidos que tive e que nunca mais terei. Junto com esses devaneios, começei a imaginar o dia em que talvez eu dissesse isso a alguém, provalvemente eu estaria é claro, mais velha. Estaria eu, escrava de um computador em que o word era acionado com a voz ( o futuro pertence a Deus ou a tecnologia?), bebendo coca-cola, matando minha criatividade por ter que fazer algum texto qualquer na pressa e entrega-lo a redação de algum jornal famoso? Eu, escovando minha língua a frente do espelho, com a boca cheia de dentes, esperando como sempre algo de novo acontecer.Mas de repente, alguém toca o interfone. Corro pela casa como Baby Jane Hudson (mas eu não estava esperando algum Edwin da vida) e vou atender. Mas esqueço-me de que eu estou numa "casa de repouso" (apelido carinhoso de asilo) portanto, a casa não é minha. Apavorada com a realidade que me assola, sento-me com as mãos cobrindo meu rosto enrugado. Dali a pouco escuto a voz conhecida de minha companheira de fofocas desde o ensino médio, Maria. Antes que ela perceba meu estado deplorável, dou-lhe um abraço caloroso e peço que sente-se. E vamos falar de que? Do mesmo assunto de quando tínhamos 15,16 anos: vida alheia e busca pelo homem perfeito sé é que existe.


E que fim tomaram aquelas criaturas do ensino médio? Levaram a breca-eu pensei. Uma está na Europa vivendo da arte, o outro casou-se e herdou a loja. E como sempre colocamos mil flores na vida dos outros, tentando depreciar a vida modesta que tivemos. Metade dos sonhos não realizados. A Europa continua sendo um sonho, uma utopia para nós. E o sonho de um possível casório foi-se junto com água pelo ralo, porque esta teimosia e o medo não deixaram eu dar um passo que sempre julguei maior que minhas perninhas de Mirabel.


Saímos para dar um passeio pela casa e nos encontramos com a gralha, outra companheira de caduquice longínqua do ensino médio. Andamos as três de braços, rindo muito e relembrando os pequeniques do Jardim Botânico, as gincanas mal feitas e as gracinhas no corredor da escola só porque haviam câmeras lá. E como é de praxe quando se fica mais velho, dizemos que as coisas no nosso tempo eram melhores e tudo mais.


E para fim de papo, meu devaneio acaba com que eu mesma dando-me conta de que estava dizendo que meu maior medo não era de envelhecer e sim de não realizar o "velho sonho de atravessar as cordilheiras" e tudo acabar numa casa de repouso, sem glamour, nem música de fundo. Pego-me pensando se minha vida é um filme de Fellini, Godard ou Aldrich. Quem sabe, ela seja notas musicais do Manhattan Transfer. Sim, eu acredito no jazz.