quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Carta para Mademoiselle De Rochefort


Sou o melhor analgésico que existe. Melhor que os pianos acalmantes, o gosto de uma risada gostosa, ou aquela loira que você costumava gostar e agora apenas lembra-se dela quando escuta "moi chansons". Eu rasgo os erres, você adora quando faço isso, levanta o volume no máximo e juntas entramos em um infinito particular. E quando quer sair do País da Matemática, é a mim que você recorre e esboça com tua letra miúda os versos que saem a mais de 40 anos de minha boca, achando que todos irão entender com precisão o que queremos dizer.
Sei do teu segredo, querida, estou 24 horas no teu cérebro, pensa que não sei? Sou a mademoiselle de Avignon, isso deveria dizer alguma coisa para você. Se Piaf não tivesse existido antes de mim, provavelmente não nos conheceriámos. Só desculpo você por preferir a Piaf do que a mim, porque até eu mesma prefiro ela do que a mim. Discordo de você apenas num ponto: minhas pernas precisam ser exibidas, usar calças quase nos seios me cansam. Ainda bem que você não sabe nada de minha vida, porque essas pernas já foram muito bem aproveitadas por várias nacionalidades. Eles gostam de mulheres aparentamente tapadas, mon petit. Falando neles, fiquei sabendo que a mademoiselle andou desdenhando a torto e a direito. Embora aquela branquela azeda diga ao contrário, acho lindo um homem que sabe empinar um cigarro. Existem casos e casos amour, aqueles que fumam em cima de você e aqueles que tragam, você consegue perceber a diferença? Não dê ouvidos a quem está acomodada com o mesmo homme a mais de vinte anos, ela não experimentou as boêmias que só a França pode oferecer. Mas estou de pleno acordo com sua última atitude, achei de uma elegância tamanha! Apesar de você querer ser aquela que escreve compulsivamente para a Marie Claire como naquela música, aprecio seu bom gosto. Bom gosto porque gostar de mim é sinal de bom gosto. Nossos momentos estão guardados em minhas músicas, você vai ouvir e lembrar da época em que pedia conselhos para mim. Ou quem sabe cantava orgulhosamente La Marseillaise como se fosse o próprio hino do seu país. O Brasil é um país bonito, eu gosto dele. Tenha orgulho dele, ma belle.

Da sua Mademoiselle d' Avignon, Mireille Mathieu