sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Gotas de suor devaneadas


Me pego num dia daqueles de 40 graus, sala pegando fogo tal como um inferno. Professor entra na aula. Matéria? Sociologia. Ah não. Mas nós já tivemos geopolítica isso, mas que tédio! Olho para o lado e vejo minha colega de chapinha discutindo sobre a última edição do Big Brother:
- Mas tu não achas uma injustiça o que aconteceu semana passada?
Como que eu vou achar alguma coisa se eu nem assisto a essa bobagem pré-fabricada! Janis Joplin dizia que “prefiro viver cinco anos intensamente há perder meu tempo na frente de uma TV.” Realmente sociologia ou geopolítica depois deste último fato me parece muito mais interessante. Claro, é preferível discutir-se sobre assuntos evasivos como a traição de Antenor na novela das oito (mas passa às nove, por favor, estou ficando cada vez mais revoltada!) do que se falar do que o golpe de Pinochet influenciou na nação chilena ou então das influências da crise de 1929 nos dias de hoje.
Pelo simples motivo de cada vez mais a sociedade estar produzindo pessoas acéfalas. Pessoas que acham que o melhor programa da televisão brasileira é aquele que tem em algum momento alguma baixaria ou alguma mulher nua (quanto mais nua melhor). E eu, na minha simples aulinha de sociologia revoltada com tudo isso. Acho que vou ser uma pessoa ignorante, assim serei mais feliz. E não é verdade? Se você é alienado, a vida se torna muito mais fácil, você não pensa, não questiona e não reivindica. Ser brasileira é andar no fio da navalha, sabendo que amanhã você pode estar estendido numa calçada com uma bala perdida atravessada sob seu peito.
Agora olho para o lado e vejo a fulana do cabelo enrolado cantarolando dança da motinha e afins. Só se dá tempo de respirar fundo e pensar como seria produtivo em vez de cantarolar isso, dar com uma frigideira em minha cabeça ou cantarolar “lá lá lá talkin’ about my generatioooooon” (ou qualquer outro clássico do bom velho e rock n’roll, mas nada contra a MPB). Taí outra coisa que começa a me revoltar desde cedo da manhã, desde que Rita Lee cantava rock, desde que o mundo era mundo: essa facilidade dos meus colegas, dos colegas da grande escola da sociedade brasileira de se manterem inertes, sorrindo, cantando a semana inteira, alheios ao futuro que bate a nossa porta. Mas quem se importaria com isso quando ainda existem festas nas boates para se curtir? É preferível se batalhar para se comprar o ingresso para o show do Evanescence do que sair nas ruas protestando contra o aumento dos salários de alguma casta. Não é culpa de ninguém, a gente já nasce com essa coisa chamada individualismo incubado dentro de nós. É como se dois e dois fossem cinco.
Já são quase oito horas, a professora está explicando sobre a tentativa de o Brasil mudar de sistema liberalista para o neo-liberalista. Quem foi o presidente que tentou fazer esta transição? Alguém respondeu LULA. O que? Não, me dêem licença eu vou me atirar janela abaixo. Levanto a mão e respondo que não foi o Lula e sim o Collor, que congelou os salários e aquelas coisas todas que todos nós sabemos. Me digam, dá pra dizer que somos o futuro de uma nação depois disso? Com pessoas que não conhecem a história do próprio país? Acho que não. Pedir um pouco de cultura no Brasil, seria pedir demais? Por favor: escolas, senhor presidente, ministros, senado e assembléias alimentem o país com cultura! Vai ser a única coisa que não poderão nos tirar, porque o nosso dinheiro público já foi há muito tempo. Vamos mudar esse país, essa cultura, por favor! Brasileiros que lêem apenas UM livro por ano enquanto os franceses lêem em média mais de DEZ não podem mudar uma nação!
Deus não é brasileiro e se for, fugiu para o estrangeiro porque aqui tava e está difícil. Ah! Melhor eu voltar para minha aula de sociologia que eu ganho mais
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