
Depois de vários anos num mesmo lugar, temos a sensação de que conhecemos tudo e todos. Mas é fato de que cada dia que se passa, temos a impressão de não saber realmente quem está ao nosso lado. E não acontece só com a mocinha da novela, parece que a mentira está infiltrada no ralo das nossas próprias ilusões. Afinal é conveniente inventarmos uma mentira vivida (não consigo pensar em verdades inventadas como Lispector), para alimentarmos o nosso cérebro com algumas migalhas de sonhos que lá no fundo sabemos que nunca se realizarão.
Estas "mentiras vividas" são alimentadas por aqueles que gostam de sustentar uma parte das ilusões. Como numa cadeia alimentar, um dependendo do outro. Neste doce tempo, fantasiamos as mais variadas coisas, levantamos e acordamos pensando "ah se fosse assim..." e as vezes temos a impressão de realmente as coisas terem se acomodado do jeito que inventamos. O grande trunfo do homem é quando sua ilusão se acaba, ele rapidamente arranja outra, como cobras mudando de pele. Nenhuma mentira inventada é para sempre. A única que é para sempre, somos nós mesmos e nossas mudanças.
Mas existem pessoas que não conseguem aceitar esse círculo vicioso. A tendência é bloquear a mente, repetir descontroladamente que nada está acontecendo. Ou continuar na mentira. Mesmo sabendo que agora, a mentira não terá mais aquele sabor doce, pois a graça de ser uma mentira foi perdida, com a revelação da verdade. Confesso que chorei a primeira vez na minha vida, quando descobri que o mundo não poderia ser como minhas mentiras. Meu mundo, aqui dentro de casa e nada mais. Eu tinha mais de 30 anos para inventar ilusões, mas naquele momento eu queria minha mentira sólida de volta. A perdi para sempre e depois ela se regenerou em forma de outra coisa.
Acho que o que ela quer neste momento agora, mais do que tudo é torcer seu pescoço por ter deixado que contassem a verdade. Ela bem sabia que a mentira toca uma flauta mágica e tem a aparência mais bonita que nossa mente pode conceber. Os castelos de papel podem ser reconstruídos, os meus por exemplo cansaram de serem moldados e quando estão solidificados, o vento vem e os destroi. É a ordem natural das coisas.