terça-feira, 27 de novembro de 2007

Boneca que diz não


Bate na porta e vá entrando sem cerimônia, mas tomecuidado com les roses blanches, elas parecem estardesabrochando junto comigo, neste dia quente deprimavera. Johnny não tinha muito cuidado com portas,sempre que entrava em meu camarim quase a derrubava(também com quase dois metros de altura, o que ele queria?) até que um dia ela desabou no chão e tiveram que consertá-la.Além de quebrar portas, ele era especialista em encher as mulheres com quem queria ter alguma coisa de mimos, para poderconquistar a confiança delas e finalmente poder investir. E eu estava na lista de Johnny e não era de hoje não. Johnny e eu nos conhecemos há mais ou menos 20 anos e foi ele quem apelidou-me carinhosamente de demoiselle d'avignon. O apelido pegou e confesso que ficava aborrecida quando alguém que não fosse ele, me chamava assim. Mas nós dois sabiámos que água não se mistura com oléo. Isso poderia definir, Johnny e eu. Apesar de eu sentir um desejo quase que incontrolável de tê-lo em minha casa, dormindo em minha cama, não podia deixar que ele vesse isso, eu conhecia Johnny melhor que todos. Portanto todos meus sentimentos eram catalizados nas músicas que ele produzia paramim, eu as cantava como se o estivesse sentindo dentro de mim, para que pudesse sentir minha alma dizendo todos os dias como eu precisava dele inserido em minha vida.

De repente, depois de muitos anos afastado de minha vida, Johnny voltou como um clarão. Eu sabia que toda essa volta dele era puramente intencional,com a desculpa esfarrapada de produzir um disco meu, como nos velhos tempos.E eu morria de medo dos velhos tempos, a possibilidade de meu sentimento reacender era sinônimo de problemas. Sem me dar conta, Johnny foi sendo inserido no meu dia a dia. Quando não estávamos juntos no estúdio produzindo/ensaiando ou nos talk shows da vida, perguntava as pessoas sobre o seu dia. Estava tudo voltando e eu decidi não impedir. Johnny ia em minha casa, convivia com meus filhos e ninguém desconfiava daquele nosso sentimento. E nós dois como crianças tímidas, evitávamos ao máximo nos olhar nos olhos.

Lembro-me bem como se fosse hoje, daquele dia em que o frio parecia congelar minhas entranhas. Já passava das 10 horas da noite e como era de praxe, Johnny iria me levar em casa. Quando as maquiadoras terminaram de passar a última camada de pó em minhas bochechas, lá estava Johnny parado na porta, com o dedo no relógio, apressando-me como olhar. As maquiadoras sairam do recinto e ficamos sozinhos, Johnny, eu e a neve lá fora.O silêncio é quebrado, por uma voz de trovão. Ele. Johnny.
- Você parece tão pálida, poupée. Por isso que detesto essas maquiadoras, elas tiram toda a expressão do seu rosto. Vou buscar um vinho para você tomar ao menos uma cor nessas bochechas.

Quando estamos a sós, Johnny costuma chamar-me de "poupée".De súbito, ele voltou com uma garrafa e dois copos. Ajudei-o com os copos e com a recusa de Johnny, deixei que ele mesmo nos servisse. Coloquei o copo na boca, mas mal conseguia beber. A presença dele me deixava embaraçada. Logo o silêncio foi rompido novamente, mas agora pelo som que ecoava no camarim. Era alguma canção tocando na rádio. Tirou o copo de minha mão e se pôs a me girar pelas cadeiras, pela mesa de cabiceira! Ele realmente sabia como me agradar. Johnny parecia excitado com o sorriso que se abriu em meus lábios e cantava alegremente enquanto conduzia meu pequeno corpo com sofreguidão pelo camarim.A música acabou e ficamos nos fitando, com os olhos brilhando e rindo da situação. Calmamente levantou meu queixo e seus lábios juntaram-se aos meus. Eu sorvia todo aquele gosto para mim, o máximo que podia, para nunca mais esquecer como eram seus lábios mordendo os meus. Agora entendia como aquelas mulheres sentiam-se quando eram beijadas por ele em público, ficavam ostentando, pois os lábios de Johnny valiam ouro. Ele estava esfregando nos meus lábios, como eu era fraca e não resistível aos seus encantos. Queria que meu gosto de batom de cereja ficasse para sempre impregnado nele, por isso eu o beijava desesperadamente. Johnny levou-me para a cadeira mais próxima e sentou-me em seu colo,como papai fazia comigo em Avignon. Eu era a boneca de Johnny e ele iria brincar comigo até se cansar. Ele ria e cochichava ao pé do meu ouvido, dizendo que eu parecia uma criança, com meu pequeno corpo aninhado nas suas pernas. Fiquei brava e tentei rebater,dizendo que a França inteira desejava-me, mas Johnny calou-me com um beijo e não pude falar mais nada. Alguns minutos depois, lá vem ele com suas mãos por baixo da minha blusa,apertando e espremendo minha cintura. Enfiei a cabeça no peito de Jonhhy e deixei que fizesse o que bem quisesse comigo, afinal as bonecas não servem para isso? Naquela noite fui judiada, até minha alma se sentir beijada.

Hoje Johnny está morto e tento encontrar algum sentido em minha vida. Depois de alguns anos você quer ser apenas uma mulher, mitos são para quem pode. Eu queria ser mulher com Johnny mas ele morreu antes de saber disso. Ainda sim, tenho seu gosto guardado, do qual eu saboreio todos os dias, numa tentativa frustrada de trazê-lo para perto de mim.