segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

...ções. a vida é cheia de repeti...


Esta é uma confissão do fundo dos olhos. Eu me chamo Matite, porque minha irmã não conseguia pronunciar meu nome (ela tinha dislexia, mais uma das desgraças familiares) e então ficou este mesmo. Casei, desisti e sobrevivi. Aqui estou viva, ligada numa tomada de 220 V. E pra que? Para meus irmãos rirem pelas minhas costas, esbanjando o dinheiro que ganhei saindo daquele cú de mundo de cidade? Ah, eu morei durante muitos anos numa cidade no fim do mundo, aonde a coisa que se fazia era falar sobre a vida alheia. Mas minha mãe em vez de fazer isso, fazia filhos. Fez 14 cópias dela e de meu pai. Fez isso para que tívessemos que passar fome no inverno e calor no verão, para que se semeasse a discórdia em nossa casa pois todos brigavam pelo pouco d comida que tinha. Eu na minha infância cheia de laranjas podres, odiava o fato de não termos nada. Até pensei em doar meus irmãos em troca de algo para comer.
Mas aquela merda de cidade se tornou pequena demais para minhas ambições. Resolvi dar as costas a eles e seguir meu rumo. Quando a gente é bonita, as coisas se tornam automaticamente mais fáceis. Queria me deitar com homens cheirosos, eu queria o mundo e queria naquela hora. Em escala vertiginosa, eu dormi com todas as nacionalidades possíveis, não tinha amigas, achava que a qualquer hora algumas dela poderia roubar-me o pouco que consegui. Foi aí que conheci Aznavour. Ele me ensinou a ser elegante, como me portar diante das coisas. Tornei-uma puta erudita.

E pra que? Se na primeira oportunidade que apareceu, Azvanour me jogou fora por alguma outra garota que poderia ter dotes para virar uma puta erudita. Fiquei jogada como gato em lata de lixo, implorei para que ele voltasse, Aznavour pisou em mim e fiquei esmagada como barata. Eu ficava em baixo de seu apartamento, absorta, ouvindo as dedilhadas de piano, o Charles tocava piano, sabem. Ele fodeu com o pouco de vida que eu tinha. Me fodeu e ainda levou a melhor. Maldito. O diabo se encarregou de me dar o pão mais amassado, fodido mesmo . Comi e vomitei até ficar branca como papel.

Aznavour, seu merdinha, você achou que as coisas ficariam assim? Não, ainda havia me sobrado minha irmã Marcelle que morava na capital e lá fui eu pedir arrego a ela. A contra gosto, ela me cedeu um lugar na sua simplória casa. Um dia estava na sacada, tomando um sol, agonizando Deus (se é que ele existia para mim) e o mundo, quando bateu na porta um homem com H maísculo, Charles, coisa que você nunca foi. Um mês depois ele batia todos os dias não só na porta, mas ficava batendo na porta do meu coração, querendo entrar e eu o barrando. Seu dinheiro já havia entrado antes do amor mesmo. Casei com ele, virei o orgulho da família. "Sigam o exemplo de Matite" - eles diziam.

E pra que? Para ter que carregar a culpa de ter uma família desgraçada como a minha? Desgraçados, vocês são tudo uma corja de malfeitores. Nadando no meu dinheiro e esperando eu cair de ópio daqui a alguns anos. A culpa é sua, seu desgraçador de vidas, Charles Aznavour. Mas guardo ótimas lembranças nossas, meu lugar no seu coração e vice versa não? Juramos isso até que o pra sempre acabasse. Só que pra mim não acabou. Sua voz ainda ecoa pela casa dizendo:

"Quand la nuit nous délaisse,aux premières heures du jours..."