sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Típico enredo global



Rua Da Margem, 234: típico cenário de novela global e de despedida. Estamos indo embora. Quero voltar ao hotel, mas o tempo e a pressa de Maria e sua mãe chegarem em Porto Alegre é maior do que minha vontade de despedir-me com decência de Sylvinha e seus dedos finos. Acho que até foi melhor assim. O simples fato de estar indo embora para vê-la sabe-se Deus quando novamente, faz com que meu coração se sinta pisoteado. Falando no meu músculo involuntário, ele esteve a beira de enfartar com os joguinhos típicos "araujuanos" e desta vez pra valer.


Não só fui ao inferno do mundo dos bens materiais e pessoas entupidas de perfumes importados, como passei pela decepção da possível derrota. Eram dez da noite do dia 02 de outubro e enquanto as pessoas divertiam-se num festival de mentiras, eu perambulando na rua cheia de tralhas, praguejando o ano de 2003 e o cd da Tia Mirinha. As ideias pareciam perdidas no chão e desta vez não parecia a ver solução. Meus olhos se enchiam de lágrimas vada vez que pensava na hipotese de sair da cidade sem vê-los e tudo que havia feito fosse em vão. Entro na sorveteria que estive horas antes animada, fresca e feliz, mas agora com os olhos embotados de lágrimas. Quanto mais tentava odia-los e pedir para Deus que morressem, lembrava do rosto de cada um deles sorrindo e me enchendo de elogios. Impossível tentar odiá-los por mais que a situação pedisse isso. Para tentar acalmar-me, Maria e sua mãe estimulam-me a comer um crepe gordurento de coração de galinha. Em meio a mordidas, mais lágrimas e goles de água minha paciência e meu amor próprio haviam ido embora. Então porque lá no fundo eu achava que tudo não passava de uma grande mentira fruto de uma brincadeira que a vida estava me aprontando? Não sei. Mas sei que voltamos para casa ao som de Tori Amos, caladas. Naquela hora não havia como brincar com minha desgraça como da outra vez. A mãe da Maria pediu para que eu tentasse ligar pela última vez. Se não atendessem, vá dormir e espere até o ano que vem para vê-los novamente. Disquei os números numa calma não compreendida por mim mesma, a derrota estava instalada no meu cérebro, eles não iriam atender. De repente, ouço a voz dele. Aos berros (é uma pena que nesta hora minha alma não tenha ido parar no corpo de Mike Tyson para soquea-lo) digo que voltei para casa, que disseram que eles não estavam no hotel e muito menos no centro de eventos. E berrando, Eduardo me diz para ir pro hotel naquela mesma hora, que iriam nos buscar. Desligo e esmurrando a porta, grito para Maria vestir a saia naquele mesmo minuto, pois iriámos para o hotel. Meu coração começou a disparar de novo. Saimos de casa maltrapilhas e com as tralhas embaixo do braço, para não voltarmos mais.


Sob os olhares desafiadores dos seguranças do Laje De Pedra que no mínimo achavam que éramos fãs disfarçadas de Zezé Di Camargo, pedimos para que chamassem a Sylvinha, o Eduardo ou Jesse. Vendo as suas caras de descrença, entramos sem credencial, morrendo de medo de nos tirarem de lá. De repente, perdidas, ponderamos que o melhor mesmo era ligar para Eduardo. Maravilha, o Jesse ia nos buscar e nosso sofrimento teria fim ali mesmo. Ele com uma cara de mais bêbado do que nunca, nos aponta o corredor aonde eles estariam. Era como se para mim aquilo fosse a maior provação da minha vida, talvez o corredor da morte. A passos largos, como quem não quer nada, chegamos no tal corredor.

Quando aquele sorriso lindo se abriu para mim, esqueci de toda a decepção e humilhação que havia passado. Abracei-a como se fosse minha boneca favorita, apertando-a contra mim como se quisesse matá-la pelo tremendo papelão que eu passei. Depois foi ele, desta vez eu sem salto, parecendo um saca rolhas de tão pequena que sou. Dirigiu aqueles elogios e tirou os discos de minha mão e foi mostrar para o Sérgio Reis. Nesta altura, minhas faculdades mentais não funcionavam mais. Pronunciei uma tímida frase: "Toma é pra ti." Seus olhos castanhos arregalaram-se e com meus olhos sempre focados em suas mãos brancas de cera, ajudei-a a abrir o "singelo" presente que havia feito para ela. Nesta hora eu gostaria que todos que estavam ali a olhar e tocar como curiosos no altar de adoração que havia feito para ela desaparessem.


Durante as duas, talvez três horas que consegui monopoliza-la para fins relacionados a mim, fiquei agarrada em seu braço fino e magro, morrendo de medo de tudo e todos. E ela tirando e colocando aquele casaco. As vezes me perdia, não sabia se estava agarrando o casaco ou seu braço gélido. Era uma tortura, ter que tirar meu braço do seu, nem que fossem apenas dois segundos, quando terminavam de cantar e obrigatoriamente tínhamos que aplaudir. E as demonstações de amor ali.... eu as aspirava e cutucava Maria tentando passar para ela um pouco de tudo aquilo que eu sentia naquele momento. Sentia que eles divertiam-se as minhas custas, aos meus sorrisos, risadas e cantorias desafinadas. Eduardo sorria para Sylvinha e seu olhar comunicava-se com ela, numa dança frenética de versos ditos nas músicas de Rosana. "Tesão... tesão.."- ela cantava isso sem tirar os olhos dele. Meus ouvidos afinados escutando tudo e tentando adivinhar o que iria acontecer nas próximas horas. Entre aplausos, cantores entrando e saindo ela me contando sobre os produtos caros de Canela, com aquela ingenuidade de 1969. Duas crianças sentadas na mesa. Uma tomando guaraná light e a outra coca-cola. A criança loira de farmácia fazendo carinho no rosto da criança de veludo. E o adulto de dez anos mais, apertando as bochechas da mesma.


Eu, como cinderela esperando a hora que o feitiço se acabaria e eu viraria gata borralheira da turma 222. De repente, puxam o nosso adulto de dez anos mais para uma entrevista. Levantam suas calças, lambem sua canela. São coisas para serem lembradas daqui até a eternidade. E continuamos a caminhar pelo hotel, como se fóssemos princesas de Mônaco. Somos conduzidas a entrar em uma sala minúscula (minha claustrofobia esqueceu de manifestar-se). Vão falar sobre prevenção da AIDS e uso de camisinha. Não façam isso comigo, por favor. Enquanto discorriam sobre isto, os pensamentos mais sujos se manifestavam em mim, principalmente quando ele diz que "o sexo tem que ser algo mais que a penetração."É Eduardo, comigo seria assim. Ops, falei o que não devia! Mas não vou pedir desculpas por ter tido pensamentos promíscuos, ninguém mandou atiça-los. Para amenizar, como vários pedaços de chocolate. Surpreendentemente ela se vira para mim e diz que vai dormir. De volta pro presente então, Jessica. Antes que possa dizer que a amo e todas as breguices de sempre, ela se retira deixando apenas Eduardo ao deus dará que diz que "é hora das crianças irem pra cama". Só irei você colocar-me para dormir e ops! Novamente falei o que não devia.

Será que minha vida virou uma novela da Globo ou um dramalhão mexicano do SBT?